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Wednesday, January 27, 2010

Os milagres são possíveis?


Os cientistas e os artistas tendem a ver a ciência e a arte de formas radicalmente diferentes. Se, por um lado, como já aqui defendi, não me identifico com a forma como muitos artistas olham para a ciência, a verdade é que, por outro, também não sou apologista da forma como alguns cientistas vêem a arte.

O caso que me é mais próximo é o do cinema. Por exemplo, já várias vezes tive oportunidade de ler críticas por parte de cientistas ao facto de muitos filmes defenderem a superstição em vez da razão, pois dessa forma incita-se as pessoas a serem crédulas, ao invés de aprenderem a lidar com os princípios do cepticismo e do método científico.

Os cientistas orgulham-se - e com razão - de terem a capacidade de, quando entram no laboratório, colocarem de lado as suas crenças, para não se iludirem no seu trabalho de investigação. No entanto, penso que deveriam ter essa mesma capacidade quando, por exemplo, entram numa sala de cinema. Vejamos alguns exemplos em que, na minha opinião, essa capacidade é importante.

Quando, no final do filme Sinais, de M. Night Shyamalan, Mel Gibson (um pastor que perdera toda a sua fé quando a mulher morreu num acidente) recupera as suas crenças mais profundas ao aperceber-se de que as coincidências não existem, para finalmente voltar a dar um sentido à sua vida, pouco me importa que, na verdade, as coincidências não sejam obra do destino, mas obedeçam às leis matemáticas das probabilidades. O poder daquelas imagens, e sobretudo dessa extraordinária sequência final, torna irrelevante o que as coincidências são no nosso próprio mundo. No(s) mundo(s) de Shyamalan, devido à honestidade e à inocência do olhar sobre a fé, assim como à complexidade dos medos que assolam as suas personagens, os milagres são possíveis.

O que é impossível é falar em milagres e em cinema sem pensar em Ordet (na imagem), do dinamarquês Carl Dreyer. No final do filme, para espanto de todos, quando o "maluquinho" da família pede com verdadeira fé à personagem Inga, que morrera a dar à luz, que volte à vida, acontece um milagre. Nesse momento, pouco importa que, de volta à realidade do nosso mundo, eu esteja bem consciente de que não temos conhecimento de que algum milagre tenha de facto acontecido. No nosso mundo não há milagres, mas este dado em nada limita o poder daquele momento; pelo contrário, apenas contribui para o acentuar. Não admira que João Bénard da Costa afirme que viu "um milagre acontecer em Ordet", e "se me disserem que é cinema eu respondo que não é, não". Em Dreyer, os milagres fazem-nos acreditar.

Quando vejo Shyamalan, Dreyer e outros realizadores em que o tema da fé predomina com imagens tão comoventes e poderosas, sou profundamente crente. Claro que, fora da sala de cinema, a conversa é outra.

Sunday, December 27, 2009

Para quando uma cultura do conhecimento?


Quando C. P. Snow deu a conferência sobre As Duas Culturas - a cultura das ciências e a das humanidades, que se encontravam separadas por uma enorme falta de entendimento e compreensão - não só fez um exemplar retrato da sociedade da época como, sem o saber, foi quase profético em relação ao que viria a ocorrer na sociedade daí a 50 anos. As Duas Culturas de C. P. Snow continuam bem presentes na realidade de hoje em dia, por variadíssimas razões. Normalmente, quando este assunto é abordado, fala-se sobretudo na ignorância em relação à outra cultura; contudo, há outras razões - talvez mais graves - para que exista este fosso enorme que as separa.

Nessa conferência, C. P. Snow acusou ambos de que essa ignorância se estava a instalar, mas foi especialmente crítico dos intelectuais humanistas ao dizer que, para além dessa ignorância, estes revelavam também um enorme desprezo que se baseava na ideia de uma suposta superioridade intelectual. Que é como quem diz, nós estamos num patamar demasiado elevado de intelectualidade para perdermos o nosso tempo com questões científicas e tecnológicas.

Esta ideia é muito comum hoje em dia, e verifica-se sobretudo no desprezo pela matemática revelado por muitos dos que se escapam dela mal terminam o ensino básico. Não saber de história ou de português é considerado grave; no entanto, para muitos não saber de matemática ou de ciência é motivo de um certo orgulho chico-esperto, difícil de compreender. Richard Dawkins, no seu livro Unweaving the Rainbow: Science, Delusion and the Appetite for Wonder, exemplifica e comenta este tipo de situação:

Admitting what you don't know is a virtue, but gloating ignorance of the arts on such a scale would, quite rightly, not be tolerated by any editor. Philistine ignorance of science is still, in some quarters, thought witty and clever. How else to explain the following little joke, by a recent editor of the London Daily Telegraph? The paper was reporting the dumbfounding fact that a third of the British population still believes that the sun goes round the earth. At this point the editor inserted a note in square brackets: '[Doesn't it? Ed.]' If a survey had shown a third of the British populace believing that Shakespeare wrote The Iliad, no editor would humorously feign ignorance of Homer. But it is socially acceptable to boast ignorance of science and proudly claim incompetence in mathematics. I have made the point often enough to sound plaintive, so let me quote Melvyn Bragg, one of the most justly respected commentators on the arts in Britain, from his book about scientists, On Giants' Shoulders (1998).

There are still those who are affected enough to say they know nothing about the sciences as if this somehow makes them superior. What it makes them is rather silly, and it puts them at the fag end of that tire old British tradition of intellectual snobbery which considers all knowledge, especially science, as 'trade'.
O outro aspecto que gostaria de abordar leva ainda mais longe esta ideia de desprezo, e revela uma incompreensão que ultrapassa todas as barreiras do bom-senso. Este aspecto tem que ver com a incapacidade de alguns artistas em aceitar que é possível gostar-se genuinamente de matemática, de ciências e de tecnologia. Repare-se que já não estamos no campo do gosto pessoal, nem no campo em que cada um opina sobre se deve ou não informar-se melhor acerca de determinada área do conhecimento, mas sim no campo em que se questiona a honestidade do gosto alheio.

Várias situações que têm acontecido comigo exemplificam na perfeição o que acabei de referir. Há alguns anos, abandonei a música porque me apercebi de que preferia uma carreira relacionada com uma área mais científica. Nessa altura, foi-me dito por professores meus de música que devia ter consciência de que já não teria no meu futuro profissional uma relação tão íntima com aquilo que iria fazer. Que é como quem diz: os artistas ligam-se de tal forma ao que fazem que vivem-no 24 horas por dia, enquanto os outros olham para a sua profissão como algo separado da sua vida pessoal. Desta forma, foca-se uma ideia muito comum: a ideia do prazer da arte face à frieza desinteressante da ciência.

Outra situação idêntica ocorreu à conversa com uma pessoa intimamente ligadas às artes. Quando lhe contava a história da minha vida, procurei explicar-lhe que a minha mudança de ideias quanto ao meu futuro profissional se devia à minha paixão pela matemática, pela física e pela importância do desenvolvimento tecnológico. Contudo, os argumentos foram inúteis, pois ele acabou por ficar convicto de que o que eu aprendia no Instituto Superior Técnico até me poderia ser mais útil do ponto de vista profissional, mas que era impossível que a minha paixão estivesse ali.

Infelizmente, muitos artistas têm a noção de que todos os outros - ao contrário deles próprios, em que os interesses pessoais e profissionais se fundem num só - vêem a sua profissão (ou, no caso de estudantes como eu, as matérias que estudam) como uma obrigação chata e desgastante, que cumprem apenas para poder viver. E é impossível convencê-los do contrário; de que é possível gostar de outras coisas para além da arte, da história ou da literatura.

Assim, As Duas Culturas vão continuar separadas durante os próximos largos anos, e será impossível fundi-las numa única, muito mais desejável: a Cultura do Conhecimento.

Saturday, December 19, 2009

Avatar, o Cinema do Futuro?


Faz 12 anos desde que estreou o último filme de James Cameron, altura em que o mega-sucesso Titanic foi lançado. O realizador de Terminator 2, um dos melhores filmes de acção da década de 90, fez com que fosse criada uma grande expecativa em torno de Avatar: há mais de uma década que o filme estava a ser preparado, e só não foi lançado antes porque James Cameron estava à espera que existisse tecnologia suficientemente avançada para corresponder às suas ambições.

Hoje, a tecnologia existe: o 3D e o digital são, de facto, impressionantes. No entanto, o grande talento de Cameron já não se vislumbra desde 1991, ano em que estreou o 2º filme da saga Terminator. A primeira parte de Avatar retrata o contacto do personagem principal com o povo que habita o planeta Pandora, que mantém uma íntima relação com a Natureza. Infelizmente, essa relação é básica e foleira: espiritualismo recheado de diálogos new age vazios de conteúdo; bicharada mística de todas as cores e feitios a passear pelo ecrã só para fazer bonito, sem possuir qualquer funcionalidade dramática; personagens completamente quadradas e simplistas, sem um pingo de complexidade.

De certa forma, esta abordagem é quase a antítese do que Terrence Malick fez em The New World quando John Smith, acabado de chegar a América, estabelece contacto com os indígenas. Nesse filme, a personagem de Colin Farrell descreve, sob o lindíssimo 2º andamento do concerto nº23 para piano de Mozart, um mundo sem invejas, sem violência, sem traição, sem mentiras, sem ódios; apenas a mais pura beleza, gentileza e paz. No entanto, através do poder das imagens de Malick, que embora extraordinariamente belas não estão lá só para isso, vamos percebendo que aquele povo também evidencia, embora de maneira diferente, os vícios que a personagem principal não conseguia ver, garantindo-lhes uma complexidade fascinante. Contudo, em Avatar a beleza é apenas visual, sendo que a profundidade cinematográfica fica ausente. Aquele povo não é composto por verdadeiras personagens, mas apenas por bonecos simbólicos cujo único objectivo é fazer passar a mensagem de Cameron.

Na segunda parte, os humanos resolvem destruir esse mundo pacífico, espiritual e amigo da Natureza. Aqui, o que salta à vista, não obstante a conhecida capacidade do realizador para filmar acção de qualidade, é uma mensagem ambientalista forçada a martelo pelos olhos do espectador adentro, mais uma vez sem o mínimo de subtileza e de complexidade.

Posto isto, queria agora abordar as questões tecnológicas relacionadas com o cinema. Avatar tem sido visto por muitos como o filme que vai revolucionar o cinema, e que acabou de ditar o cinema do futuro. Não é verdade. A tecnologia do 3D tem vindo a ser aperfeiçoada ao longo dos últimos anos, e de facto atinge aqui um estádio elevado de qualidade, sendo que o 3D de Avatar é de um realismo impressionante.

No entanto, é preciso garantir que o cinema não fica em função do 3D, pois é o contrário que deve acontecer. O que temos visto ultimamente é que esta tecnologia não costuma ser utilizada para dar profundidade à imagem e para contribuir para a atmosfera do filme, mas apenas para fazer umas brincadeiras com objectos que parece que vão contra o espectador, e situações parecidas. Cameron conseguiu resistir a esta tentação, mas acabou por falhar na mesma: se as próprias imagens não têm profundidade cinematográfica, o 3D não fará milagres.

E é isto que os realizadores, se quiserem aproveitar as potencialidades das novas tecnologias, têm que ter em mente. Um filme que precisa do 3D para funcionar bem, não passará de uma espécie de viagem de montanha-russa ou de qualquer carrossel de feira-popular. É muito divertido durante os minutos em que se está lá dentro; depois, passou à história. Contudo, isto não é Cinema.

O verdadeiro Cinema fica para a História.

Sunday, November 22, 2009

A Arte terá Limites?

Há uns anos circulava pela internet, a uma velocidade que só as novas tecnologias de informação permitem, um mail que se tornou muito conhecido e polémico, e que vinha acompanhado da foto à esquerda. Era sobre um artista que tinha deixado um cão a morrer de sede e de fome numa exposição de arte. Com esta peça artística, havia uma mensagem a passar: "O importante para mim é constatar a hipocrisia alheia: um animal torna-se o centro das atenções quando o ponho num local onde toda a gente espera ver arte, mas deixa de o ser quando está na rua. O cão está mais vivo do que nunca porque continua a dar que falar."

Há uns dias, no site do Expresso, li uma notícia que, com as devidas diferenças, me fez lembrar esta história do cão e do artista. No Reino Unido, uma bailarina epiléptica foi paga para ter um ataque de epilepsia em pleno espectáculo. Ficará dias sem dormir e sem comer, suspenderá a medicação e tomará estimulantes, para que durante o espectáculo o ataque possa ocorrer. O teatro diz que "num determinado momento, Marcalo poderá sofrer um ataque epiléptico. Quando este ocorrer, soará um alarme, as luzes aumentarão de intensidade, deixará de ouvir-se a música e uma série de câmaras gravará o ataque", convidando também o público a gravá-lo com o telemóvel.

Sem querer colocar estes dois eventos no mesmo saco (afinal de contas, o cão, ao contrário da bailarina, não teve escolha quanto a submeter-se ou não ao triste espectáculo), a verdade é que existe uma ligação entre eles. Ambos me fizeram colocar a questão: a arte terá limites? Isto é, será aceitável que, para se exprimir artisticamente, um artista possa utilizar todos e quaisquer meios, mesmo que sejam para promover um espectáculo absolutamente grotesco, nojento, moralmente condenável e perigoso para a saúde ou para a própria vida? A resposta, evidentemente, só pode ser não: tal não é aceitável.

Esta foi, aliás, a opinião da grande maioria das pessoas face ao triste espectáculo do cão que foi deixado a morrer de sede e de fome. Pela internet, junto com o referido mail, passaram petições com milhares de assinaturas por parte daqueles que repudiaram a situação. Felizmente, neste aspecto, parece-me que a decência ainda predomina, o que levou este evento a tornar-se ironicamente curioso: o objectivo do artista era constatar a hipocrisia das pessoas, mas o essencial acabou por ser o facto das pessoas terem podido constatar a hipocrisia do próprio artista.

Para mim, o facto de de vez em quando se levar avante um espectáculo deste tipo tem que ver com uma confusão que, aliás, é muito comum na arte pós-moderna. A confusão é entre arte e choque. Se se conseguir chocar alguém e se isso for feito num museu, foi produzida arte. Ou seja, alguns artistas pós-modernos querem-nos convencer de que as palavras arte e choque são sinónimos. Só que há um problema: não são. De facto, é possível chocar as pessoas através da arte (perco a conta ao número de vezes que fico chocado quando vejo um filme...), mas também é possível chocá-las promovendo espectáculos absolutamente básicos, primários, insultuosos, e indignos da inteligência humana.

Uma vez ouvi um engenheiro dizer que, para um trabalho de engenharia, eram necessárias as seguintes qualidades nas respectivas proporções: uma tonelada de matemática, duas toneladas de física e oito toneladas de bom senso. Ou seja, mesmo num trabalho em que é possível estabelecermos razoavelmente os nossos limites em termos mais rigorosos, através da matemática e da física, o bom senso é indispensável. A arte não pode ser excepção. E isto leva-me finalmente a responder à questão que coloquei no início: a decência e o bom senso devem estabelecer os limites para a expressão artística. Nestes casos que relatei, esses limites foram largamente ultrapassados.