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Tuesday, May 11, 2010

Tolerância de Ponto


A vinda do Papa Bento XVI a Portugal mereceu que o estado garantisse tolerância de ponto aos funcionários públicos. A incoerência das reacções que isso provocou nos vários grupos políticos é curiosa. A direita santinha, sempre tão empenhada a criticar as greves e a falta de produtividade do nosso país, ficou agora bastante silenciosa. Grande parte da esquerda ficou, pelo contrário, escandalizada com a garantia desta tolerância de ponto aos funcionários públicos. Esta estranha inversão de papéis mostra que, na verdade, as convicções religiosas de cada um são suficientemente fortes para afastarem a coerência política.

De qualquer forma, o mais importante é que ontem, no Expresso, Daniel Oliveira (com quem raramente concordo) explicou muito bem porque é que esta tolerância de ponto é inaceitável. Reproduzo o texto integralmente.

Esta semana, ateus, agnósticos, protestantes, hindus, muçulmanos e judeus vêem as escolas dos seus filhos, públicas e supostamente laicas, encerradas. Razão: os católicos recebem o líder da sua Igreja e por isso todos os restantes são obrigados e ficar com os seus filhos em casa e muitos deles obrigados e pôr um ou dois dias de férias.

Esta semana, os cidadãos portugueses ateus, agnósticos, protestantes, hindus, muçulmanos e judeus estão impedidos de tratar de qualquer assunto que envolva o Estado porque os católicos (ou alguém por eles) decidiram, ao arrepio da leis da República, parar o país para tratar dos seus assuntos.

Esta semana, os funcionários públicos ateus, agnósticos, protestantes, hindus, muçulmanos e judeus estão impedidos de ir trabalhar para que os seus colegas católicos tratem de uma celebração religiosa que apenas a eles diz respeito.

Esta semana os contribuintes ateus, agnósticos, protestantes, hindus, muçulmanos e judeus pagam as despesas salariais de todos funcionários públicos - os católicos e os que não o sendo não podem ir trabalhar - para que a Igreja Católica, uma entre várias, receba o seu Papa.

Diz a Constituição da República Portuguesa: "Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, perseguido, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever por causa das suas convicções ou prática religiosa". Repito: ninguém pode ser privilegiado ou beneficiado. E diz também: "O Estado não discriminará nenhuma igreja ou comunidade religiosa relativamente às outras". Estou seguro que quando mais algum religioso tiver uma qualquer celebração semelhante não terá direito ao mesmo tratamento.

Esta semana a laicidade e neutralidade religiosa do Estado foi suspensa e todos somos católicos à força. Porque quando chega à relação do Estado com a Igreja Católica Apostólica Romana, os cidadãos não católicos são tratados como espectadores e a Constituição do País como adereço.

Friday, March 5, 2010

Plano Inclinado

Pedimos desculpa pela falta de actualização recente, uma falha que tentaremos começar a colmatar brevemente. Entretanto, aqui fica o Plano Inclinado da semana passada.


Saturday, February 13, 2010

A liberdade está em causa?

Depois do recente caso com Mário Crespo e da divulgação das escutas do caso Face Oculta por parte do Sol, é legítimo perguntarmo-nos se a liberdade de expressão e de imprensa está em causa. As respostas a esta questão têm inundado a blogosfera e os jornais, oscilando entre dois extremos radicais: por um lado, há quem continue a defender Sócrates para lá do que é sério fazer-se; por outro, também existem os que já anunciaram a morte da liberdade de expressão em Portugal.

Neste contexto, penso que são sensatas as seguintes palavras:

O Governo costuma dizer que nós somos um país onde há grande liberdade. É verdade: há uma grande liberdade de expressão. É por isso que este acto não devia ter acontecido. Este acto veio manchar o nosso regime democrático. Este episódio é muito negativo e lamento que o senhor primeiro-ministro se escude permanentemente no silêncio e na ausência de resposta, porque o silêncio não ajuda o primeiro-ministro a limpar uma nódoa que ficará e que o perseguirá durante muito tempo. É que, afinal de contas, o Governo actuou com o objectivo de eliminar uma voz incómoda.
Estas palavras são de José Sócrates em 2004, quando o Governo de Santana Lopes fez pressão para a saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI. E este antigo Sócrates, inocente e bonzinho, tem razão. A liberdade de expressão não está neste momento em causa, e expressões como "atentado contra o estado de direito", como Paulo Rangel utilizou no Parlamento Europeu, são exageradas. Contudo, isto não significa que se deve atenuar a gravidade da situação. Afinal, Sócrates e o seu Governo já fizeram muito pior que Santana Lopes, com os escândalos que envolvem o primeiro-ministro a sucederem-se uns aos outros. Sócrates é, neste momento, um líder fragilizado e sem credibilidade. Com ou sem PS no Governo, não creio que a sua liderança se prolongue por muito mais tempo.

Friday, February 12, 2010

"Exploradores", por Miguel Monjardino

Artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro, extraordinariamente pertinente no que diz respeito ao nosso presente e futuro.

A inovação tecnológica e o empreendedorismo sempre foram coisas importantes. Mas agora que estamos claramente a entrar numa época em que o conhecimento é cada vez mais relevante, a inovação tecnológica e o empreendedorismo serão cruciais em termos económicos e políticos. Os países que nas próximas décadas conseguirem atrair e manter as empresas privadas mais capazes de inovar, desenvolver e vender produtos nos mercados mundiais serão mais ricos e influentes em termos internacionais.

A Apple, liderada por Steve Jobs, é hoje considerada uma das empresas mais inovadoras no mundo. O "The Economist" da semana passada chamava a atenção para o facto de a empresa ter conseguido transformar nas últimas décadas as indústrias dos computadores, da música e das telecomunicações. O novo iPad promete continuar a transformar os computadores e as telecomunicações e a reinventar a imprensa.

Um olhar para as empresas mais inovadoras do ponto de vista tecnológico e para a geografia do empreendedorismo mostra que os EUA continuam a ser uma espécie de país-farol nestas duas áreas. Quem é que vem a seguir? No meio de alguns candidatos, vale a pena olhar para Israel.

À primeira vista, a sugestão pode parecer absurda. Afinal de contas, o Médio Oriente não é uma região estável do ponto de vista geopolítico nem integrada economicamente, a lista de candidatos interessados em destruir Israel é longa e o país só tem sete milhões de pessoas. Mas como Dan Senor e Saul Sanger mostram em "Start-Up Nation. The Story of Israel's Economic Miracle" (Nova Iorque: Twelve, 2009), as aparências enganam.

Sessenta e três empresas israelitas estão cotadas no Nasdaq em Nova Iorque. Se juntarmos todas as empresas europeias cotadas na mesma bolsa, ficamos muito longe deste número. Israel atrai tanto capital de risco para investimento em empresas tecnológicas como a França e a Alemanha juntas. Nenhum país do mundo dedica uma percentagem tão elevada do seu produto nacional bruto à investigação e desenvolvimento civil como Israel.

De onde é que vem toda esta inovação e capacidade israelita para criar e vender produtos nos mercados internacionais? Senor e Sanger sugerem três respostas. A primeira é a existência de excelentes universidades, fundos de capital de risco e um elevado número de engenheiros no país. A segunda, é um ambiente social que privilegia uma cultura igualitária, estimulante, individualista e tolerante em relação ao falhanço. A terceira, é a importância de um longo serviço militar obrigatório numas forças armadas extremamente competitivas que fazem um uso intensivo da inovação tecnológica e da liderança.

E nós, por cá, como é que estamos? "O Futuro Inventa-se" (Objectiva: 2009), de António Câmara, professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia na Universidade Nova e presidente da YDreams, é o melhor ponto de partida para esta importante discussão sobre a nossa capacidade para usar o conhecimento na criação de novas empresas e produtos.

António Câmara argumenta que um dos nossos grandes problemas nestas duas áreas é que "a universidade portuguesa forma estudantes para serem empregados e não 'exploradores': líderes políticos, artistas, cientistas e empreendedores". A título de comparação, veja-se, por exemplo, o caso da Universidade do Michigan (EUA), onde 10% dos caloiros - seiscentos alunos - criaram um negócio no ensino secundário.

A aversão ao risco e ao falhanço da nossa sociedade, a falta de fundos de capital nas universidades e de incentivos académicos para o empreendedorismo dos professores são outros pontos analisados por António Câmara.

"O Futuro Inventa-se" é um livro indispensável. Não precisamos de fazer melhor. Precisamos de fazer muito melhor. Para isso é necessário uma nova geração de exploradores. Só assim teremos um futuro melhor.


Empreendedorismo
35 anos depois da sua fundação, a Apple é um exemplo da inovação tecnológica e do empreendedorismo. Israel é um país extremamente interessante nestas duas áreas. Portugal precisa de uma nova geração de exploradores.

Barómetro
+ O Iraque chegou a acordo com a Exxon e a Shell sobre o desenvolvimento de um importante campo petrolífero no sul do país
- O impacto dos défices orçamentais na credibilidade e no preço das dívidas públicas da Grécia, Portugal e Espanha

Miguel Monjardino

Wednesday, February 3, 2010

A Democracia está doente

“A liberdade é a coexistência de modelos e não a imposição de um em concreto”. Esta frase, que o jornalista Henrique Monteiro escreveu num artigo publicado na edição online do Expresso, resume em traços gerais aquilo que deveria ser a base do pensamento de um verdadeiro democrata quando confrontado com uma maneira diferente de pensar. Infelizmente, esta frase não poderia ser dita pelo nosso primeiro-ministro, que lida muito mal com a crítica e com opiniões contrárias à sua actuação como governante. São mais do que conhecidos os habituais telefonemas de José Sócrates (ou elementos que lhe são próximos politicamente) para redacções de jornais e televisões como forma de pressionar jornalistas “incómodos”, tentando condicionar um trabalho que se pretende sério e independente. Mas ainda mais grave do que telefonemas são os seus efeitos práticos. Manuela Moura Guedes, José Eduardo Moniz, José Manuel Fernandes e muito recentemente Mário Crespo foram afastados de cargos que desempenhavam no exercício das suas funções, precisamente por serem “incómodos” para o regime e para muitos lambe - botas que dele dependem.

Não basta a um primeiro-ministro citar grandes vultos da literatura humanista ou personalidades que se destacaram na defesa da liberdade. É preciso ser um exemplo na sua defesa, o que inclui o respeito por quem pensa de maneira diferente da nossa. Estamos longe de viver numa claustrofobia democrática, mas a liberdade já “respirou” muito melhor do que actualmente.

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro do jornal amador "Ecos".

Tuesday, February 2, 2010

Dúvidas?

"Better to remain silent and be thought a fool than to speak out and remove all doubt." - Abraham Lincoln

O melhor que o Governo teria a fazer sobre o caso Mário Crespo seria ou o silêncio ou algum comentário tão curto que não enterrasse ainda mais José Sócrates, depois de todos os inconclusivos escândalos anteriores. Jorge Lacão soube perceber isso muito bem, e por isso limitou-se a afirmar que não comenta casos com base em "calhandrices". Infelizmente para si próprio e para o primeiro-ministro, Augusto Santos Silva não teve a mesma perspicácia, e acabou por falar demais.

Segundo o Público, Santos Silva acha "absolutamente inacreditável" que se queira "fazer um texto com base no que supõe serem informações que lhe tenham sido transmitidas acerca de conversas privadas, tidas em restaurantes". Curiosamente, o ministro da defesa não acha "absolutamente inacreditável" que o primeiro-ministro, acompanhado por dois ministros, se dirija num restaurante à mesa onde está o director de programas da SIC e lhe diga que Mário Crespo é um problema que tem que ser solucionado.

Para além disso, também é estranho que não ache "absolutamente inacreditável" que ele próprio classifique como privadas conversas que são ouvidas noutras mesas do restaurante. Eu, pelo menos, quando quero garantir privacidade, procuro falar de forma a que os outros não ouçam. O que é "absolutamente inacreditável" aqui é que venha agora Santos Silva dar lições de moral sobre privacidade, dizendo que “todos temos direito à privacidade das nossas comunicações”, procurando defender o primeiro-ministro (a meu ver, Santos Silva já está a alargar demasiado o conceito de ministro da defesa) de forma a torná-lo a vítima destes acontecimentos preocupantes, que nem tem direito a ter conversas em privado sobre os jornalistas cuja situação quer ver solucionada.

Como se não bastasse, Santos Silva conseguiu dizer ainda que a situação "não merece nenhum crédito", já que "as fontes não são conhecidas". Claro que, sendo agora algumas fontes já conhecidas, provavelmente é altura de voltar a entrevistar o ministro, que certamente já lhes dará crédito. No meio de tanta lábia, Santos Silva só não conseguiu fazer uma coisa: desmentir o sucedido. Se tivesse ficado calado, algumas dúvidas teriam permanecido. Assim, acabou de dissipá-las...

Monday, February 1, 2010

Parece que, afinal, o problema já foi resolvido...

O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”.

Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.


Estes são excertos de um artigo de Mário Crespo publicado hoje pelo Instituto Francisco Sá Carneiro. O artigo foi originalmente escrito para ser publicado no Jornal de Notícias, mas, por alguma razão, não o foi...

Friday, January 29, 2010

"Para onde vai Barack Obama?", por Miguel Monjardino

Destaque habitual para o artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro (portanto, antes do discurso de Barack Obama no Congresso).


"Sinto a mudança no ar! E vocês?", perguntou Edward Kennedy no seu grande discurso de apoio a Barack Obama na American University, em Janeiro de 2008. A multidão delirou com a retórica política apaixonada do grande leão da esquerda americana em defesa de Obama.

Kennedy morreu em Agosto do ano passado mas o seu sucessor em Washington não será Martha Coakley, a candidata escolhida pelos democratas de Massachusetts. Scott Brown, um republicano desconhecido e com uma agenda política muito diferente daquela que Kennedy defendeu no discurso na American University, é o herdeiro de um dos lugares mais sagrados da política norte-americana.

Há factores locais que explicam esta enorme surpresa política. Nos últimos dias, a Casa Branca e a liderança dos democratas no Senado e na Câmara dos Representantes crucificaram Martha Coakley e a sua campanha incompetente e distraída. Em Washington, os democratas não estão interessados em que a eleição do Massachusetts também tenha uma leitura nacional sobre Barack Obama e as suas prioridades políticas. O problema é que tem. E muitas!

Quando um estado como o Massachusetts, onde os democratas e os independentes representam 80% do eleitorado, elege um republicano com a agenda de Scott Brown, é evidente que o Presidente tem um problema político no resto do país.

A vitória de Scott Brown mostra duas coisas preocupantes para Barack Obama e para os democratas que vão a eleições no Outono. A primeira é o colapso do apoio dos independentes e dos reformados. Os independentes tendem a ser centristas do ponto de vista político - brancos e trabalhadores com pouca educação universitária. Este bloco eleitoral apoiou Obama e os democratas de uma forma decisiva em 2008. A partir da Primavera deste ano, os independentes começaram a distanciar-se do Presidente.

Scott Brown só conseguiu ganhar com o apoio deles e dos reformados. A maioria dos dois grupos é frontalmente contra a reforma da Saúde de Obama. Ao contrário do que acontece em Portugal - um país em que as pessoas tendem a ter pouca confiança em si mesmas e adoram essa coisa misteriosa e protectora chamada 'Estado' -, os independentes americanos têm enormes suspeitas em relação ao excesso de poder e influência em Washington. Estes independentes estão claramente furiosos com Obama e com a liderança democrata no Congresso. A sua influência em estados como Colorado, Wisconsin, Florida e Ohio poderá causar problemas aos democratas nas eleições do Outono e à campanha de reeleição de Obama em 2012.

A vitória de Brown tornou mais clara a dificuldade do Presidente em estabelecer uma relação emocional com a classe média americana. Maureen Dowd, a colunista do "New York Times", tem chamado a atenção para este ponto.

Onde é que tudo isto deixa Barack Obama? O Presidente precisa de convencer a maioria dos americanos de que consegue realmente liderar e ajudar a resolver os seus problemas. Mas para o realizar precisa de fazer uma escolha difícil do ponto de vista político.

Obama ganhou a presidência prometendo duas coisas: profundas mudanças políticas que tanto entusiasmaram Edward Kennedy e a ala esquerda dos democratas e cooperação com os republicanos em Washington. O problema é que o big bang legislativo de Obama está a alienar uma parte importante da coligação que o elegeu, coloca em perigo político os democratas eleitos por distritos conservadores e é incompatível com as prioridades dos republicanos.

No início do seu segundo ano na Casa Branca, Barack Obama está entre a audácia e o pragmatismo. O discurso sobre o Estado da União na próxima quarta-feira promete ser muito interessante.

Miguel Monjardino

A estupidez não tem limites


Fui hoje almoçar fora com o meu pai ao restaurante habitual. Costumamos ser clientes mais ou menos assíduos há cerca de 10 anos. A comida que lá servem é quase sempre muito boa e raramente temos razões de queixa nesse aspecto. O homem que serve as pessoas à mesa é também dono do restaurante juntamente com os pais. São pessoas bastante simpáticas das quais nunca tivemos razões de queixa. No entanto o rapaz que nos costuma servir à mesa, por vezes costuma fazer uns comentários acerca das notícias que passam na televisão que me deixam estupefacto. Normalmente os alvos dos comentários são os mesmos que a extrema-esquerda (do punho cerrado à caviar) costuma fazer em matéria de política internacional, sempre com os EUA como os culpados de tudo o que acontece no Mundo. Mas hoje, acerca de uma notícia sobre o Haiti que passava na televisão, rebentou completamente com a escala da estupidez que eu pensava que terminava em Chavéz. A pérola foi a seguinte: "Eu não percebo o que é que estão lá a fazer 7000 e tal marines. Cá para mim eles não fazem nada e quanto mais gente morrer lá melhor para tornar aquilo diferente como eles querem." Eu não comentei devido ao estado de choque em que fiquei. Não sei se fiz bem, mas começo a achar que em muitas situações já não adianta combater sozinho contra alguns "moinhos de vento" da ignorância.

Thursday, January 28, 2010

Em que é que ficamos?!


Público
Saúde e empregos são as grandes prioridades de Obama
O Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, prometeu ontem continuar a lutar pela reforma do funcionamento do sistema de saúde e instou os dois partidos no Congresso a ultrapassar as suas divisões e aprovar a nova legislação que garantirá o acesso a cuidados médicos a mais de trinta milhões de pessoas actualmente fora do sistema.
[Em seguida, o Público dedica quatro parágrafos às palavras de Obama sobre a reforma do sistema de saúde]
Expresso
Barack Obama quer mais emprego
Presidente Barack Obama proferiu ontem o discurso do Estado da União, revelando uma mudança de estilo. A prioridade passa a ser o emprego e a economia. Outros assuntos, como a reforma do sistema de Saúde, podem esperar.
[No artigo do Expresso, a reforma do sistema de saúde apenas é referida para dizer que Obama apenas lhe dedicou 2 minutos em hora e meia de discurso]

Tuesday, January 26, 2010

Plano Inclinado - Défice, Investimento e Educação

Plano Inclinado do passado sábado, com os comentadores usuais. Os temas são o défice, o investimento e a educação.


Saturday, January 23, 2010

Sem Comentários

Chávez acusa EUA de provocar sismo no Haiti

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, assegurou que foram os EUA que provocaram o sismo no Haiti. “É um resultado claro de uma prova da marinha norte-americana”, disse, sublinhando que “o terramoto experimental dos EUA devastou o país”. A notícia, com base num comunicado de imprensa enviado pelo governo venezuelano, foi avançada pela televisão estatal Vive e afirma que os “EUA já andavam a monitorizar os movimentos e as actividades navais naquela zona desde 2008”.

Segundo Caracas e Moscovo, “o resultado final das experiências faz parte do plano de destruição norte-americano para o Irão, que consiste numa série de terramotos planeados para destruir o actual regime islâmico”.

Lido no i.

Friday, January 22, 2010

Era Uma Vez na América


Um dos melhores filmes da história do Cinema dá nome a um recente blog de Nuno Gouveia e José Gomes André sobre os Estados Unidos da América. Recomendamos aos leitores interessados na política desse país que passem por lá.

Tuesday, January 19, 2010

PS apoia Manuel Alegre?

Manuel Alegre foi o primeiro a anunciar que está na corrida às presidenciais, mas só Francisco Louçã e o Bloco de Esquerda lhe vieram dar apoio, enquanto o PS oscila entre o "não é altura de falar das presidenciais" e o "lá vai ter de ser...". De qualquer das formas, já se percebeu que a candidatura de Alegre não agrada o PS, embora provavelmente o vá acabar por apoiar. E é normal que não agrade, pois, como escreveu Henrique Raposo ontem no Expresso, «bem vistas as coisas, o "socialismo democrático" do PS tem mais semelhanças com a "social-democracia" de Cavaco do que com o "radicalismo esquerdista" de Alegre e do Bloco».

Ontem, na RTP, António Vitorino acabou com as falinhas mansas do PS em relação a esta questão, dizendo o que ainda ninguém dentro do partido tinha dito, mas que já toda a gente sabia: «é possível que haja uma candidatura que derrote Cavaco Silva oriunda da esquerda, mas essa candidatura não pode confinar-se a ser uma candidatura de esquerda». E acrescentou algo óbvio sobre o discurso de Alegre, que só Louçã e a restante esquerda radical parecem não conseguir ver: «não é por se falar muito da pátria que se tem uma candidatura transversal ou que consegue ganhar votos no eleitorado que oscila entre PS e PSD». É por isto que se trata de pura demagogia quando Louçã apoia Alegre dizendo que é preciso uma candidatura forte de esquerda.

Tuesday, January 12, 2010

"Política Poética"

O biólogo Richard Dawkins utiliza muitas vezes o termo "ciência poética" para caracterizar as metáforas que os cientistas utilizam para transmitir a ciência não só ao público em geral, mas também para que eles próprios a entendam melhor. No entanto, Dawkins distingue a "boa ciência poética" da "má ciência poética". A primeira acontece quando as metáforas e a linguagem poética oferecem uma maneira que de facto ajuda a tornar a ciência cativante e, simultaneamente, a ser mais facilmente percebida; a segunda encontra-se em autores cuja linguagem pretende ser bela e cativante, mas que muitas vezes não é nem uma coisa nem outra, para além de não constituir um benefício para entender a ciência.

Lembrei-me deste termo de Dawkins quando li a entrevista de Manuel Alegre ao Expresso, mas neste caso modificando a expressão original para "política poética". Porque a retórica e a forma de comunicar com o público são muito importantes em política, os políticos muitas vezes também utilizam linguagem mais poética para melhor explicar as suas motivações. No entanto, também aqui é possível separar a "boa política poética" da "má política poética". A forma como entendo uma e outra é análoga em relação à ciência. Aqui ficam dois exemplos: para mim, o primeiro é má política poética, e o segundo boa.

[Um Presidente da República] tem que pensar o impossível e ver o que não é visível.
Manuel Alegre

I want it said of me by those who knew me best that I always plucked a thistle and planted a flower where I thought a flower would grow.
Abraham Lincoln

Sunday, January 10, 2010

"O Direito à Blasfémia", por Ferreira Fernandes

A propósito da "Lei da Difamação", implementada dia 1 de Janeiro de 2010 na Irlanda, que diz que quem pronunciar uma blasfémia - "uma expressão tremendamente abusiva ou insultuosa em relação a um assunto considerado sagrado por qualquer religião, causando indignação perante um número substancial de seguidores dessa religião" - arrisca-se a pagar uma multa que pode chegar aos 25 mil euros, Ferreira Fernandes escreveu este extraordinário artigo no Diário de Notícias de 5 de Janeiro.

As leis são para proteger os homens, não as ideias. Discutir (dizer alto) as ideias, as justas e as más, só tem feito bem aos homens. Foi pondo em causa a ideia de que os trovões eram ira dos deuses é que chegámos à ciência sobre os anticiclones e nos permitiu ver belas raparigas nos boletins meteorológicos. O mesmo sobre a capacidade de o homem voar: Leonardo da Vinci foi corrido como blasfemo pelos camponeses toscanos, mas graças à sua persistência, e de outros, em construir objectos voadores temos hoje as hospedeiras do ar. Certamente que há outros argumentos para defender as blasfémias, mas gosto dos argumentos que dei, lavam os olhos. Desde o primeiro dia do ano, é proibido, por lei, blasfemar na Irlanda: quem pecar paga 25 mil euros. Eu sei que há outros países em que posso ficar sem uma mão só por ter estendido um dedo àquela ideia que, sendo todo-poderosa (dizem-me), fica nervosíssima por eu lhe apontar o dedo. Mas nesses países é comum defender-se como justos os homens que fazem explodir as hospedeiras do ar. Já a Irlanda, pátria da Ryanair, põe mais aviões a blasfemar no ar do que os antiblasfemos das bombas são capazes de deitar abaixo. Daí o meu protesto por este atraso irlandês e a evocação daquela frase um dia escrita num muro lisboeta: "Se Deus existe, o problema é dele."

Saturday, January 9, 2010

"O Inverno do Regime Iraniano", por Miguel Monjardino

Destaque habitual para o artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro.

Os protestos nas principais cidades iranianas mostram que a intimidação, os julgamentos, a violência, a tortura, as violações nas prisões e os assassínios levados a cabo desde as eleições presidenciais de Junho não conseguiram o seu principal objectivo - desmoralizar e calar o crescente número de opositores ao regime de Teerão. Uma coisa é clara neste final de ano. O Irão será um dos grandes temas da política internacional ao longo de 2010. O ano que aí vem promete ser duro para os iranianos mas ninguém sabe para onde é que o país vai em termos internos e externos.

O domingo passado deu boas pistas para compreender a agenda das oposições e do regime. No final do luto pelo imã Hussein, morto pelas tropas do califa Yazid em 680, as pessoas que protestaram e enfrentaram a polícia e as milícias em Teerão não gritaram palavras de ordem contra o Presidente Mahmoud Ahmadinejad mas sim contra o líder supremo Ali Khamenei. As palavras de ordem usadas compararam Khamenei, a mais alta autoridade iraniana, ao odiado califa Yazid. No Irão esta comparação é explosiva do ponto de vista político e religioso. O seu uso mostra que, para uma parte importante da população mais jovem, o que está em causa já não é o resultado das presidenciais de Junho mas sim o regime fundado após a revolução de 1979. A resposta do regime neste dia carregado de simbolismo e emoção religiosa foi a violência, algo a que nem o Xá se atreveu na fase de maior contestação ao seu regime.

2009, o ano do trigésimo aniversário de uma das grandes revoluções do século XX, fica para a história como o ano em que Teerão perdeu a sua legitimidade interna. Estamos a assistir ao Inverno do regime iraniano. Num país em que dois terços da população tem menos de trinta anos, não é uma boa notícia para os governantes ver os estudantes e a população mais jovem a protestar determinadamente contra o regime. E também não é uma boa notícia ver um crescente número de autoridades religiosas associadas ao campo mais conservador em Qom distanciarem-se publicamente de Teerão. O que une os reformistas e os mais conservadores é a certeza de que Ali Khamenei passou a ser um peão dos Guardas Revolucionários e de que o Irão passou a ser uma ditadura.

No final do ano fico com duas dúvidas em relação ao Irão. A primeira é saber se o regime conseguirá sobreviver. A resposta mais provável é que sim, apesar de tudo. Ao matar uma série de manifestantes no domingo passado, o dia mais sagrado para os xiitas, o regime mandou um recado claro aos seus opositores. A facção que está no poder, está disposta a tudo para manter a sua riqueza, privilégios e influência política. O regime sobreviverá desde que o aparelho militar e as principais instituições do país não abandonem Ali Khamenei. Até agora não o fizeram. A chave serão os Guardas Revolucionários, uma força de 130 mil homens que controla importantes sectores do país e o impacto do programa de cortes orçamentais do Presidente Ahmadinejad junto da população mais pobre.

A segunda dúvida está relacionada com a conduta externa de Teerão. O Irão ambiciona ser uma potência regional no Médio Oriente, Golfo Pérsico e Ásia do Sul. Nos últimos anos, americanos e europeus - com o apoio dos países árabes sunitas e de Israel - viram nas sanções um instrumento político para conseguir uma mudança política interna no Irão. Como estamos a ver, a mudança aconteceu mas não na direcção pretendida. Em vez dos reformistas no poder ou próximo dele temos os Guardas Revolucionários. Em vez da prudência e do pragmatismo temos a paranóia e um sentimento de fraqueza e de cerco doméstico e externo em Teerão. O mais natural - mas também o mais perturbante - é que esta situação venha a ter uma influência substancial sobre a evolução do programa nuclear iraniano.

2009
É o ano em que Teerão perdeu a sua legitimidade interna. Estamos a assistir ao Inverno do regime iraniano, que só sobreviverá enquanto mantiver os Guardas Revolucionários. A grande dúvida é como é que o programa nuclear vai evoluir

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O modo como Robert M. Gates, Hillary Clinton e o general James L. Jones apoiaram o processo de decisão político-militar da Administração

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O défice e o desemprego estão a levar muitos americanos a perder a confiança em Barack Obama

China já é número 2
Tudo indica que, no final de 2009, a China já é a segunda maior economia mundial. O crescimento económico chinês esconde três coisas que vale a pena reter. A primeira é um PIB per capita ainda muito baixo - cerca de 3300 dólares em 2008. A segunda é o envelhecimento da sua população. O país tem cerca de 165 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Daqui a 20 anos terá 342 milhões - o equivalente à população dos EUA. A terceira são empréstimos bancários muito altos que ninguém sabe como têm sido usados.

Miguel Monjardino

Friday, January 1, 2010

'Copenada', por Miguel Monjardino

Destaque habitual para o artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro.

A culpa não é certamente da Europa", gritou o primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, às duas da manhã de sábado passado, depois da última reunião com os seus exaustos colegas europeus na capital dinamarquesa.

Copenhaga prometeu ser uma cimeira muito importante do ponto de vista político para a União Europeia. Para Bruxelas, o que estava em jogo era a liderança internacional numa questão que tende a ser vista como vital para o futuro da humanidade. No coração desta liderança não estavam exércitos nem armamento sofisticado mas sim regras legais vinculativas e a criação de um mercado internacional para as emissões de dióxido de carbono. Se há coisa que Bruxelas sabe fazer é criar as regras legais essenciais para o funcionamento de qualquer mercado.

A cimeira começou num ambiente optimista mas na madrugada de sábado passado, Copenhaga era uma mistura de resignação, desilusão e fúria. A negociação de última hora de Barack Obama com Wen Jiabao, primeiro-ministro da China, e os Presidentes da Índia, Manmohan Singh, do Brasil, Lula da Silva, e da África do Sul, Jacob Zuma, resultou num acordo particularmente cruel para os líderes europeus. Quando o sol nasceu no sábado tornou-se evidente que a ambição de a União Europeia liderar através do exemplo na redução das emissões de dióxido de carbono tinha falhado. Como uma desgraça nunca vem só, em vez da prometida liderança, Bruxelas e as principais cidades europeias tiveram muito pouca influência no resultado final. Em vez de capital da prometida esperança, a capital da Dinamarca transformou-se numa 'Copenada' política.

Que explica este falhanço? Afinal de contas, George W. Bush está de volta ao Texas, qualquer líder político que se preze já prometeu reduzir drasticamente as emissões de dióxido de carbono dos seus países nas próximas décadas e a maioria das opiniões públicas parece aceitar que o aquecimento global é mesmo um problema de destruição maciça.

Duas razões explicam o que aconteceu. A primeira está relacionada com a tensão entre o crescimento económico e os custos da redução das emissões de dióxido de carbono. A principal ambição de qualquer sociedade e governo na América Latina, África ou Ásia é desenvolver rapidamente a sua economia. Esta ambição é perfeitamente natural. E também é natural que estas sociedades e governos vejam no carvão e no petróleo - duas fontes de energia baratas mas altamente poluentes em termos de emissões de dióxido de carbono - instrumentos essenciais para conseguir a curto prazo melhores níveis de vida. A redução das emissões é possível mas, sejamos claros, tem um custo elevado. Para os países mais pobres este custo é incomportável. O que nos leva à segunda razão para o caos de Copenhaga - como é que os enormes custos financeiros da adaptação a um mundo com menos emissões de dióxido de carbono devem ser repartidos entre os mais ricos e os mais pobres? Como se tornou penosamente claro na capital dinamarquesa, não houve acordo em relação a este ponto essencial.

Onde ficamos? Dezassete anos depois, a tentativa de gerir politicamente o problema do aquecimento global através das reduções de emissão de dióxido de carbono é um desastre. Apesar de todas as promessas e retórica política, as emissões aumentaram imenso. Pior é impossível. A evolução geopolítica tornará ainda mais difícil conseguir um consenso político global nesta questão.

Se Bruxelas quiser liderar internacionalmente nas áreas da energia e do ambiente terá de abandonar o projecto quixotesco de um acordo global vinculativo ao nível da redução carbono e passar a ser um exemplo ao nível da inovação tecnológica. Infelizmente, suspeito de que não será este o caminho escolhido.

O choque iraniano
O funeral do grande ayatollah Hossein Ali Montazeri na cidade de Qom, na segunda-feira, mostrou que o Irão será um dos grandes temas da política internacional em 2010. De um lado está um grupo revolucionário determinado a usar a questão nuclear como guarda-chuva nacionalista para camuflar o seu assalto ao poder. Do outro estão estudantes universitários e cada vez mais clérigos e iranianos conservadores indignados com os assassínios, tortura e violações nas prisões do país.

17
anos depois da cimeira do Rio de Janeiro de muitas promessas, as emissões de dióxido de carbono nunca foram tão elevadas como agora. Copenhaga foi um desastre político para a União Europeia. Precisamos de mais inovação e de menos retórica e teatro.

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O processo de aproximação da Sérvia, Montenegro e Macedónia à União Europeia continua

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A oposição dos sindicatos dos professores e dos democratas a um programa de cheque-educação que permite a crianças pobres em Washington, DC, ter acesso a escolas privadas

Miguel Monjardino

Saturday, December 26, 2009

"A Ilíada e a guerra", por Miguel Monjardino

Artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição de imprensa do Expresso de 19 de Dezembro de 2009.

Há uma longa guerra de guerrilha na Ásia. Vem aí o décimo ano de combates mas o fim do conflito não está à vista. O número de pessoas que suspeitam que o comandante-chefe não tem a determinação necessária para ganhar uma guerra de guerrilha é elevado. Há grandes dúvidas em relação aos objectivos das operações militares. O processo de decisão tem revelado um comandante-chefe em agonia sobre o que fazer.

O comandante-chefe confirma em público as suas dificuldades. Há imensa gente a defender o início da retirada. O melhor guerreiro no terreno parece ter mais qualidades de liderança do que o comandante-chefe e a relação entre os dois é complicada. Os militares nunca conseguiram cercar e destruir o inimigo. Os aliados estão descontentes com a maneira como a guerra tem sido conduzida e com a pouca influência no processo de decisão militar do comandante-chefe.

Parece o Afeganistão, não é? Parece, mas não é. A guerra a que me refiro é a Guerra de Tróia, um longo conflito que opôs os gregos e troianos há mais de três mil anos supostamente por causa do rapto ou da fuga de Helena, a mulher mais bonita do mundo, para Tróia. A segurança internacional e a liberdade foram temas importantes nesta longa e amarga guerra.

A "Ilíada" de Homero, a primeira grande obra da cultura europeia, é um excelente guia para os nossos debates sobre o Afeganistão. Homero escreveu sobre tudo o que é verdadeiramente importante e imortal na guerra - o enorme sofrimento e a destruição causadas, a coragem e a determinação daqueles que têm de combater e as marés psicológicas que rodeiam os conflitos de longa duração. Ao contrário do que muitas vezes é dito, a "Ilíada" não é um poema épico que glorifica a guerra e o combate. Homero é particularmente claro em relação ao preço que a guerra cobra a todos os que a abraçam por obrigação ou opção. No discurso de aceitação do Prémio Nobel da Paz em Oslo, Barack Obama falou sobre isto.

Na sua coluna de quarta-feira no "New York Times", David Brooks chamou a atenção para a influência de teólogos cristãos como Reinhold Niebuhr (1892-1971) no pensamento, discursos e acção política de Barack Obama. Mas, em Oslo, Obama também disse coisas que estão no centro da mensagem da "Ilíada". Depois de dizer que "a guerra é, infelizmente, necessária em certas circunstâncias", o Presidente americano disse que "a coragem e o sacrifício dos soldados é cheia de glória, expressando devoção ao país, à causa e aos camaradas em armas. Mas a guerra em si mesma nunca é gloriosa e nós nunca devemos trombeteá-la como tal". Aquiles e Heitor disseram o mesmo no poema de Homero.

Na véspera de os Comandos partirem mais uma vez, silenciosamente e ignorados pelo resto do país para o Afeganistão, há pelo menos três razões para a "Ilíada" ser lida e discutida com atenção nos departamentos governamentais, parlamento, universidades, academias militares e pelo público em geral.

A primeira tem a ver com a frustração e o cansaço que acompanham qualquer campanha de contra-insurreição como aquela que está a decorrer no Afeganistão. Tal como a maioria dos eleitorados europeus, os portugueses nunca pensaram que as suas tropas poderiam vir a combater nos vales do sul da Ásia. A opção militar da Administração Obama exige mais botas no chão, mais combates e muita paciência estratégica. Para governos como Lisboa isto é um grande problema político. A segunda razão pela qual devemos ler a "Ilíada" está relacionada com aquilo que é necessário para exercer o comando político e militar de uma forma competente na guerra. Finalmente, o poema de Homero explica como é que os líderes da aliança grega geriram e resolveram o problema da desmoralização das suas tropas e opinião pública.

A "Ilíada" é uma obra indispensável para os decisores políticos, militares e civis e, graças à tradução de Frederico Lourenço, pode ser lida integralmente em português.

"The Good Soldiers"
Como é que os soldados de infantaria olham para a guerra? David Finkel do "Washington Post" acaba de publicar um livro indispensável sobre o assunto. Em "The Good Soldiers", Finkel segue o dia-a-dia de um batalhão de infantaria do exército americano em Bagdade entre Abril de 2007 e 2008 determinado a cumprir o seu dever em circunstâncias dramáticas. O que os jovens soldados vivem é uma mistura poderosa de sangue, violência, humanidade, medo, bravura, camaradagem, desespero e tragédia.

Número
3 mil anos depois da Guerra de Tróia, a Ilíada é uma obra essencial para compreender o que está a acontecer no Afeganistão. As dificuldades de uma guerra de guerrilha, o problema do comando e a desmoralização das tropas explicam actualidade da obra de Homero.

Soluções
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O primeiro voo do Boeing 787 Dreamliner é um marco na aviação comercial do século XXI
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Reitores e professores violentamente agredidos por anarquistas dentro das universidades de Atenas e Tessalónica. A violência e o medo nas universidades gregas não tem paralelo na Europa

Miguel Monjardino