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Saturday, February 20, 2010

"iPad, iPod, iPud", por Nuno Crato

Artigo de Nuno Crato no blogue do Expresso Passeio Aleatório, também publicado na edição de imprensa de 30 de Janeiro, a propósito das novas tecnologias e da sua aplicação no ensino.

Sou um 'teckie' - um apaixonado pela tecnologia. Sempre fui. Aderi ao correio electrónico em 1988 e fiz a minha primeira página Web em 1992. Tenho um iPhone. E só não sei se vou comprar um iPad porque tenho já um Kindle. Fico contente sempre que a tecnologia me facilita a vida e tento que as minhas aulas lucrem com a introdução de novas técnicas.

Não sou o único, claro. O meu colega Harm-Jan Steenhuis, um holandês que agora lecciona numa universidade do estado de Washington, é um dos muitos que gostam também de experimentar as novas tecnologias. Na passada semana, ele alcançou uma súbita e inesperada notoriedade. As suas experiências educativas apareceram difundidas por várias agências de noticiário científico e académico. A imprensa especializada reproduziu-as e Harm-Jan começou a receber telefonemas de jornalistas. Tudo isso porque escreveu sobre as suas iniciativas recentes de introdução da tecnologia no ensino.

O artigo que publicou relata uma experiência de introdução de testes electrónicos e apareceu no "International Journal of Operations Management Education" (3-2, pp. 119-148). Harm-Jan e os seus colegas resolveram fazer semanalmente online curtos testes (quizzes), para revisão frequente da matéria e avaliação dos alunos. Fazer testes curtos e frequentes é uma técnica antiga - pretende-se que os estudantes vão acompanhando a matéria e percebam onde estão a falhar. A inovação consiste em automatizar esses testes, de forma a que os alunos possam obter imediatamente a correcção das respostas e a sua classificação.

Pouco tempo antes, Harm-Jan tinha experimentado outra técnica, a dos clickers, que são pequenos aparelhos individuais onde cada aluno aperta um botão para responder a uma pergunta. São usados em alguns grandes anfiteatros de universidades dos Estados Unidos. A meio da aula, o professor faz uma pergunta. Cada aluno aperta um botão do seu aparelho individual para responder. As respostas são transmitidas electricamente ou por via rádio a um computador que as interpreta. Instantaneamente, o professor fica a saber quais os alunos que responderam correctamente à pergunta e os que se enganaram. Pode usar os resultados para os classificar ou para perceber se está a ser seguido e onde estão as dificuldades dos alunos.

Harm-Jan Steenhuis e os seus colegas tiveram um grande sucesso com estas técnicas. Os estudantes aderiram, e parece que estavam mais activos nas aulas. No entanto, quando resolveram avaliar os resultados no que realmente interessa, que é a aprendizagem, verificaram que os alunos não tinham aprendido mais. Ficaram surpresos, pois conheciam muitos artigos publicados em revistas de educação que apregoavam bons resultados com as novas tecnologias - falavam da promoção de uma "aprendizagem activa", de um "maior envolvimento dos estudantes no processo de aprendizagem". Foram ver esses artigos e ficaram mais surpreendidos ainda. Os tais "bons resultados" referiam-se apenas ao entusiasmo dos alunos. Não a uma melhoria da sua aprendizagem.

Harm-Jan disse-me, cauteloso: "Nem me passa pela cabeça criticar as novas tecnologias". Respondi-lhe que não precisava de mo dizer. Sou bem capaz de ir comprar um iPad, um iPude e instrumentos de todas as letras do alfabeto, mas não vou pretender que os meus alunos vão aprender mais só por causa disso.

Nuno Crato

Friday, February 12, 2010

"Exploradores", por Miguel Monjardino

Artigo de Miguel Monjardino, publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro, extraordinariamente pertinente no que diz respeito ao nosso presente e futuro.

A inovação tecnológica e o empreendedorismo sempre foram coisas importantes. Mas agora que estamos claramente a entrar numa época em que o conhecimento é cada vez mais relevante, a inovação tecnológica e o empreendedorismo serão cruciais em termos económicos e políticos. Os países que nas próximas décadas conseguirem atrair e manter as empresas privadas mais capazes de inovar, desenvolver e vender produtos nos mercados mundiais serão mais ricos e influentes em termos internacionais.

A Apple, liderada por Steve Jobs, é hoje considerada uma das empresas mais inovadoras no mundo. O "The Economist" da semana passada chamava a atenção para o facto de a empresa ter conseguido transformar nas últimas décadas as indústrias dos computadores, da música e das telecomunicações. O novo iPad promete continuar a transformar os computadores e as telecomunicações e a reinventar a imprensa.

Um olhar para as empresas mais inovadoras do ponto de vista tecnológico e para a geografia do empreendedorismo mostra que os EUA continuam a ser uma espécie de país-farol nestas duas áreas. Quem é que vem a seguir? No meio de alguns candidatos, vale a pena olhar para Israel.

À primeira vista, a sugestão pode parecer absurda. Afinal de contas, o Médio Oriente não é uma região estável do ponto de vista geopolítico nem integrada economicamente, a lista de candidatos interessados em destruir Israel é longa e o país só tem sete milhões de pessoas. Mas como Dan Senor e Saul Sanger mostram em "Start-Up Nation. The Story of Israel's Economic Miracle" (Nova Iorque: Twelve, 2009), as aparências enganam.

Sessenta e três empresas israelitas estão cotadas no Nasdaq em Nova Iorque. Se juntarmos todas as empresas europeias cotadas na mesma bolsa, ficamos muito longe deste número. Israel atrai tanto capital de risco para investimento em empresas tecnológicas como a França e a Alemanha juntas. Nenhum país do mundo dedica uma percentagem tão elevada do seu produto nacional bruto à investigação e desenvolvimento civil como Israel.

De onde é que vem toda esta inovação e capacidade israelita para criar e vender produtos nos mercados internacionais? Senor e Sanger sugerem três respostas. A primeira é a existência de excelentes universidades, fundos de capital de risco e um elevado número de engenheiros no país. A segunda, é um ambiente social que privilegia uma cultura igualitária, estimulante, individualista e tolerante em relação ao falhanço. A terceira, é a importância de um longo serviço militar obrigatório numas forças armadas extremamente competitivas que fazem um uso intensivo da inovação tecnológica e da liderança.

E nós, por cá, como é que estamos? "O Futuro Inventa-se" (Objectiva: 2009), de António Câmara, professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia na Universidade Nova e presidente da YDreams, é o melhor ponto de partida para esta importante discussão sobre a nossa capacidade para usar o conhecimento na criação de novas empresas e produtos.

António Câmara argumenta que um dos nossos grandes problemas nestas duas áreas é que "a universidade portuguesa forma estudantes para serem empregados e não 'exploradores': líderes políticos, artistas, cientistas e empreendedores". A título de comparação, veja-se, por exemplo, o caso da Universidade do Michigan (EUA), onde 10% dos caloiros - seiscentos alunos - criaram um negócio no ensino secundário.

A aversão ao risco e ao falhanço da nossa sociedade, a falta de fundos de capital nas universidades e de incentivos académicos para o empreendedorismo dos professores são outros pontos analisados por António Câmara.

"O Futuro Inventa-se" é um livro indispensável. Não precisamos de fazer melhor. Precisamos de fazer muito melhor. Para isso é necessário uma nova geração de exploradores. Só assim teremos um futuro melhor.


Empreendedorismo
35 anos depois da sua fundação, a Apple é um exemplo da inovação tecnológica e do empreendedorismo. Israel é um país extremamente interessante nestas duas áreas. Portugal precisa de uma nova geração de exploradores.

Barómetro
+ O Iraque chegou a acordo com a Exxon e a Shell sobre o desenvolvimento de um importante campo petrolífero no sul do país
- O impacto dos défices orçamentais na credibilidade e no preço das dívidas públicas da Grécia, Portugal e Espanha

Miguel Monjardino

Wednesday, January 6, 2010

Segurança Aérea


No excelente blog Good Math, Bad Math, o autor Mark Chu-Carroll colocou recentemente um artigo bastante esclarecedor sobre o perigo real que é morrer devido a um atentato terrorista num avião. O medo generalizado que existe de viajar de avião quando comparado com a sua segurança é um dado preocupante. Significa que algo está a ser mal feito na divulgação às pessoas sobre a segurança deste meio de transporte e que existe uma total falta de compreensão de estatística e de probabilidades. Na verdade, não é preciso ser-se um génio de nenhuma destas áreas para se compreender que esta probabilidade é extremamente baixa (embora talvez seja difícil termos noção do quão baixa é, porque simplesmente não temos intuição para os números muito grandes e os muito pequenos), e é isso que Mark-CC mostra neste texto com algumas contas bastante grosseiras, mas que não não precisam de uma maior exactidão para termos as noções mínimas exigidas. Nos últimos parágrafos, diz o seguinte:

According to the FAA, there were about 37,000 commercial flights per day in 2008 - for a total of over 13 million commercial flights per year. And that's a dramatic decrease compared to a few years earlier, before high fuel prices drove many airlines out of business, and forced others to reduce their schedules.

All of us who live in metropolitan areas see ton of airplanes taking off and landing every day. But we've got absolutely no intuitive understanding of just what that actually means. I constantly rant about how piss-poor we are at understanding scale, but I was seriously surprised by the number of flights per day around NYC. Once we get beyond numbers that we can easily count to, our intuitions about numbers are just a total disaster. We just don't really understand scale; we don't understand how big numbers add up.

And on the topic of airport security: put the numbers into context, and you'll realize that all of the panic over terrorism on airplanes is really amazingly overblown. The chances of being hurt by someone who got past airport security, even without things like the full-body scanners being deployed after this latest panic, are smaller than dying in your dentist's office from an anaesthesia error. And how often does anyone worry about that?

Existe de facto um exagero generalizado em relação a esta questão da segurança aérea (embora, como é evidente, todas as medidas adicionais sejam bem-vindas para que a probabilidade de desastre se reduza ainda mais), e penso que a comunicação social tem bastante culpa nisso, aproveitando eficazmente os momentos em que as pessoas estão mais fragilizadas devido a algum desastre aéreo recente para noticiar com escândalo qualquer problema técnico que exista num avião. Basta lembrar as semanas seguintes à queda do A330 da Air France: não havia dia em que não houvesse um avião com problemas técnicos ou a aterrar de emergência. Agora que já passaram vários meses, e lendo jornais diariamente, parece que já não há falhas técnicas em vôo... No entanto, os problemas de terrorismo já foram pelo menos 3 desde a véspera de Natal...

Saturday, December 26, 2009

Pseudo-Ciência nos Telemóveis


O blog De Rerum Natura destaca semanalmente o artigo do físico Robert Park sobre pseudo-ciência, e eu não resisto a colocar aqui o desta semana. Um dos mitos a que Park costuma dar atenção é o de que os telemóveis provocam cancro cerebral. A pachorra para este tipo de invenções sem sentido, por não estar de acordo nem com as teorias científicas nem com os dados experimentais, começa de facto a chegar ao fim. Mas, devido a uma campanha (que começa a ficar famosa) que pretende colocar avisos de risco de cancro nos telemóveis, Park volta a explicar mais uma vez:

From San Francisco to Maine there is a campaign to require cancer warning labels on cell phones. Fact: cell phone radiation doesn’t cause cancer. Cancer agents break chemical bonds, creating mutant strands of DNA. Microwave photons cannot break chemical bonds. This is not debatable. In 1989, Paul Brodeur, a staff writer for the New Yorker, claimed in a series of sensational articles that electromagnetic fields from power lines cause childhood leukemia. Brodeur, however, understood none of this and when virtually every scientist agreed that it was impossible, Brodeur took their unanimity as proof of a massive cover-up. Other anti-science know-nothings followed Brodeur’s lead, shifting their attack to cell phone radiation. Cell phones have since spread to almost the entire population, but with no corresponding increase in brain cancer. Case closed.

Tuesday, December 1, 2009

LHC na imprensa generalista

É com agrado que verifico que o LHC tem vindo a ser publicitado na imprensa generalista portuguesa. Ontem, mais uma vez, o Expresso e o Público falaram do maior acelerador de partículas do mundo, para noticiar que foi atingido um recorde de potência. Embora as noticias pudessem ser cientificamente mais completas e esclarecedoras, o destaque que tem sido dado não deixa de ser bastante positivo.

Isto porque a ciência não pode ser apenas posse de alguns, mas de toda a humanidade. É, por isso, importante que se tenha alguma noção do que está a acontecer no acelerador de partículas do CERN. Há algumas semanas, atingiu-se a temperatura mínima de 1.9K (muito próximo do zero absoluto), tornando-se um dos lugares mais frios de todo o universo (a radiação cósmica de fundo tem uma temperatura de 2.725K). Ontem, atingiu-se uma energia de 1.18 TeV, ultrapassando o acelerador de partículas de Chicago, que detinha o recorde anterior, de 0.98 TeV.

Os recordes que têm vindo a ser batidos durante estes testes iniciais recordam-nos do poder da nossa tecnologia. Mas, dentro de alguns meses/anos, as experiências que serão levadas a cabo no LHC poderão revelar-nos mistérios muito mais espantosos, pois é possivel que os seus resultados venham a revolucionar a forma como entendemos a física de partículas e a cosmologia.

Algures na fronteira entre a França e a Suiça, a 100 metros de profundidade, estão a ser pisadas as fronteiras da ciência e da tecnologia actuais, para que muito brevemente se possa começar a caminhar em direcção ao reino do desconhecido.

Para saber mais sobre o LHC, consultar esta secção do site do CERN.